Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Entrevista de Cláudia Arsénio, com o meu Pai, em 2000

Transcrevo, aqui, a entrevista da jornalista Cláudia Arsénio (que na altura ainda era uma estudante do 3.º ano de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social), efectuada ao meu Pai, 2 anos antes de partir. É um tributo à minha querida amiga e também ao meu saudoso Pai.
Uma vida em redor de outras, em prol de outras. Como dizia Alfredo em Cinema Paraíso (1988, Giuseppe Tornatore), "Quando ouvimos daqui, o cinema está cheio, que estão a divertir-se, também ficamos contentes. Dá-nos prazer que as pessoas riam. É como se nós as fizéssemos rir...e as fizéssemos esquecer as suas desgraças".
 
Na sua casa em Alto dos Gaios, no Estoril, vêm-se, aqui e ali, objectos relacionados com o cinema. Desde cassetes, livros, até inúmeros cartazes, passando por bobines de fitas antigas. São fragmentos de cinema que compõem as recordações de um amante de cinema.
 
Aos 74 anos, a memória já atraiçoa Renato Viegas. À idade, junta-se o peso das recordações de uma vida dedicada à sétima arte. Nasceu no Bombarral, distrito de Leiria, a 27 de Janeiro de 1929, e desde cedo enveredou nas lides cinematográficas, "Eu fui sempre de cinema", diz confiante. Desde novo, passava as noites no cinema da terra e tornou-se ajudante de projeccionista. "Era um trabalho perigoso! Aquelas fitas que se incendiavam eram um rastilho autêntico!"
 
Antes de se tornar um projeccionista, fez de tudo um pouco: vender copos de água, indicar lugares ou vender os bilhetes. Enfim, tudo o que o pudesse manter próximo do cinema.

A MEMÓRIA DE UM CINEMA
Na década de 50, Renato Viegas não parava num lugar por muito tempo. Como projeccionista percorreu o país inteiro a levar o cinema a todas as localidades possíveis. "Andei com o cinema correndo o país, em todos os sítios onde se podia dar o cinema".
 
Quando se chegava a uma terra, escolhia-se o local, normalmente uma Casa do Povo, e começava-se a organizar o serão dessa noite. Nas localidades sem electricidade, levava-se uma grande lâmpada que funcionava através de um gerador eléctrico à manivela, "Uma vez um homem virou-se e disse que a lâmpada era uma cabaça, daquelas para levar o vinho!", diz sorridente.
 
As recordações começam então a surgir. São muitas as histórias e as personagens que atravessam a vida de Renato Viegas. Misturado com o sorriso, vem um suspiro. "Lembro-me de uma vez um senhor começar a dizer aos amigos que tinha um gerador igual e que sabia como se desligava. E desligou-o mesmo. Como é claro, gerou-se a confusão com tudo às escuras". Antes da exibição do filme, colocava sempre um disco numa espécie de grafonola que também trabalhava à manivela. As pessoas, pouco habituadas a este tipo de modernices, perguntavam onde estava o artista.
 
Renato Viegas tem saudades da vida que levou. Nas suas próprias palavras, admite que foi uma vida cheia e sem grandes preocupações, "A única preocupação que tinha era se não aparecesse ninguém e isso por vezes aconteceu!". No entanto, era raro não aparecer ninguém. O cinema era considerado uma festa e todos iam assistir às fitas, levando as suas próprias cadeiras e até uma merendinha.
 
Nunca teve grandes problemas com a censura, embora o Estado Novo não fosse brando com o cinema. O corte e o controlo de títulos e cenas já fazia parte do quotidiano de pessoas como Renato Viegas. Começa a rir-se e lembra-se de mais umas histórias, "Havia uns títulos complicados...".
 
Os anos passam e, no início da década de 60, Renato Viegas vem para Lisboa. Nesta altura, entra para a Lusomundo, onde trabalha durante cinco anos. Deste emprego, como chefe de programação da Lusomundo, guarda a recordação de um velho amigo, Lauro António [o realizador], "temos, aliás, o mesmo tipo de inglês", confessa.
 
Quando saiu da Lusomundo, foi para a Intercine, na altura a empresa responsável pela gestão dos cinemas em Portugal. Mais uma vez como chefe de programação, Renato Viegas via os filmes que, na altura, vinham "virgens", sem qualquer informação sobre o tempo de duração. Além disso, tinha a seu cargo a escolha dos filmes a ser exibidos e dos ciclos a realizar.
 
Durante estes anos, participou também no Festival de Cinema de Setúbal, o Festróia. Mais tarde passou pelos cinemas Quarteto e Oxford, em Cascais, sempre como chefe de programação.
 
O CINEMA NÃO É O MESMO
Em 1993, no dia em que fez 65 anos, reformou-se. Admite as saudades do cinema, mas também sabe que agora o cinema já não é o mesmo. Aliás, hoje em dia, já não vai muito ao cinema, "as coisas são muito diferentes agora", diz com alguma tristeza. "Antigamente ir ao cinema era uma festa, uma forma de convívio e de encontrar os amigos. Agora não: não se conversa, entra-se ali dentro, sai-se e pronto". Este é um desgosto, mas existem outros, como o facto de nenhum dos dois filhos ter seguido as suas passadas.
 
Uma simples pergunta torna-se muito complicada de responder quando se é cinéfilo: "Qual é o seu filme preferido?" Depois de colocada, começa uma enumeração, os nomes dos filmes vão surgindo: "Oh! São tantos os filmes que gosto!", esclarece Renato Viegas, "Sei lá... O Padrinho, A Túnica, Ben-Hur, E Tudo o Vento Levou... os grandes clássicos, no fundo!".
 
Depois vêm novas histórias, como quando saía do trabalho, na Intercine, às 18h, e seguia a pé para o Cais do Sodré. No caminho passava pelo Tivoli, onde estava a ser exibido "Música no Coração" e, quase todos os dias, não resistia a espreitar um bocadinho.
 
O discurso volta a ser interrompido com a lembrança dos grandes filmes de Alfred Hitchcock. Depois de tantas histórias, a memória também já desenferrujou um pouco. Outro suspiro. E agora o silêncio, porque as luzes já estão apagadas e o filme vai começar.
Cláudia Arsénio
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publicado por Jv às 16:45
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