Transcrevo, aqui, a entrevista da jornalista Cláudia Arsénio (que na altura ainda era uma estudante do 3.º ano de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social), efectuada ao meu Pai, 2 anos antes de partir. É um tributo à minha querida amiga e também ao meu saudoso Pai.
Uma vida em redor de outras, em prol de outras. Como dizia Alfredo em Cinema Paraíso (1988, Giuseppe Tornatore), "Quando ouvimos daqui, o cinema está cheio, que estão a divertir-se, também ficamos contentes. Dá-nos prazer que as pessoas riam. É como se nós as fizéssemos rir...e as fizéssemos esquecer as suas desgraças".
Na sua casa em Alto dos Gaios, no Estoril, vêm-se, aqui e ali, objectos relacionados com o cinema. Desde cassetes, livros, até inúmeros cartazes, passando por bobines de fitas antigas. São fragmentos de cinema que compõem as recordações de um amante de cinema.
Aos 74 anos, a memória já atraiçoa Renato Viegas. À idade, junta-se o peso das recordações de uma vida dedicada à sétima arte. Nasceu no Bombarral, distrito de Leiria, a 27 de Janeiro de 1929, e desde cedo enveredou nas lides cinematográficas, "Eu fui sempre de cinema", diz confiante. Desde novo, passava as noites no cinema da terra e tornou-se ajudante de projeccionista. "Era um trabalho perigoso! Aquelas fitas que se incendiavam eram um rastilho autêntico!"
Antes de se tornar um projeccionista, fez de tudo um pouco: vender copos de água, indicar lugares ou vender os bilhetes. Enfim, tudo o que o pudesse manter próximo do cinema.
A MEMÓRIA DE UM CINEMA
Na década de 50, Renato Viegas não parava num lugar por muito tempo. Como projeccionista percorreu o país inteiro a levar o cinema a todas as localidades possíveis. "Andei com o cinema correndo o país, em todos os sítios onde se podia dar o cinema".
Quando se chegava a uma terra, escolhia-se o local, normalmente uma Casa do Povo, e começava-se a organizar o serão dessa noite. Nas localidades sem electricidade, levava-se uma grande lâmpada que funcionava através de um gerador eléctrico à manivela, "Uma vez um homem virou-se e disse que a lâmpada era uma cabaça, daquelas para levar o vinho!", diz sorridente.
As recordações começam então a surgir. São muitas as histórias e as personagens que atravessam a vida de Renato Viegas. Misturado com o sorriso, vem um suspiro. "Lembro-me de uma vez um senhor começar a dizer aos amigos que tinha um gerador igual e que sabia como se desligava. E desligou-o mesmo. Como é claro, gerou-se a confusão com tudo às escuras". Antes da exibição do filme, colocava sempre um disco numa espécie de grafonola que também trabalhava à manivela. As pessoas, pouco habituadas a este tipo de modernices, perguntavam onde estava o artista.
Renato Viegas tem saudades da vida que levou. Nas suas próprias palavras, admite que foi uma vida cheia e sem grandes preocupações, "A única preocupação que tinha era se não aparecesse ninguém e isso por vezes aconteceu!". No entanto, era raro não aparecer ninguém. O cinema era considerado uma festa e todos iam assistir às fitas, levando as suas próprias cadeiras e até uma merendinha.
Nunca teve grandes problemas com a censura, embora o Estado Novo não fosse brando com o cinema. O corte e o controlo de títulos e cenas já fazia parte do quotidiano de pessoas como Renato Viegas. Começa a rir-se e lembra-se de mais umas histórias, "Havia uns títulos complicados...".
Os anos passam e, no início da década de 60, Renato Viegas vem para Lisboa. Nesta altura, entra para a Lusomundo, onde trabalha durante cinco anos. Deste emprego, como chefe de programação da Lusomundo, guarda a recordação de um velho amigo, Lauro António [o realizador], "temos, aliás, o mesmo tipo de inglês", confessa.
Quando saiu da Lusomundo, foi para a Intercine, na altura a empresa responsável pela gestão dos cinemas em Portugal. Mais uma vez como chefe de programação, Renato Viegas via os filmes que, na altura, vinham "virgens", sem qualquer informação sobre o tempo de duração. Além disso, tinha a seu cargo a escolha dos filmes a ser exibidos e dos ciclos a realizar.
Durante estes anos, participou também no Festival de Cinema de Setúbal, o Festróia. Mais tarde passou pelos cinemas Quarteto e Oxford, em Cascais, sempre como chefe de programação.
O CINEMA NÃO É O MESMO
Em 1993, no dia em que fez 65 anos, reformou-se. Admite as saudades do cinema, mas também sabe que agora o cinema já não é o mesmo. Aliás, hoje em dia, já não vai muito ao cinema, "as coisas são muito diferentes agora", diz com alguma tristeza. "Antigamente ir ao cinema era uma festa, uma forma de convívio e de encontrar os amigos. Agora não: não se conversa, entra-se ali dentro, sai-se e pronto". Este é um desgosto, mas existem outros, como o facto de nenhum dos dois filhos ter seguido as suas passadas.
Uma simples pergunta torna-se muito complicada de responder quando se é cinéfilo: "Qual é o seu filme preferido?" Depois de colocada, começa uma enumeração, os nomes dos filmes vão surgindo: "Oh! São tantos os filmes que gosto!", esclarece Renato Viegas, "Sei lá... O Padrinho, A Túnica, Ben-Hur, E Tudo o Vento Levou... os grandes clássicos, no fundo!".
Depois vêm novas histórias, como quando saía do trabalho, na Intercine, às 18h, e seguia a pé para o Cais do Sodré. No caminho passava pelo Tivoli, onde estava a ser exibido "Música no Coração" e, quase todos os dias, não resistia a espreitar um bocadinho.
O discurso volta a ser interrompido com a lembrança dos grandes filmes de Alfred Hitchcock. Depois de tantas histórias, a memória também já desenferrujou um pouco. Outro suspiro. E agora o silêncio, porque as luzes já estão apagadas e o filme vai começar.
Cláudia Arsénio
Nostalgia...
... por um filme, que se tornou ao longo dos últimos 30 anos, um filme de culto. Não se fala muito dele, mas praticamente todos o conhecem.
Tem história, acção, ficção científica, crença e uma força brutal. Para a época, marcada pelos filmes da saga STAR WARS e STAR TREK, estava muito ao alcance destas sagas e não lhe ficou atrás.
O realizador, na altura desconhecido, tornou-se num guru do estilo sombrio de cinema, sem lhe retirar o encanto e o desejo de ver: David Lynch.
Falo, obviamente de...

Originalmente criado por Frank Herbert em 1963, David Lynch tornou-o 'real' em 1984, ano de grande preponderância em muitas frentes, em especial o cinema.
É um filme que me entusiasma, me prende e que nunca me canso de ver. E foi a primeira vez que ouvi falar de Sting, na altura...
Um dos clips da semana, que coloquei aqui ao lado, é um fim alternativo para o filme Dune. E agradeço, a quem nunca teve a ideia de lhe fazer sequelas, pois é um filme intocável.
O meu Pai (1929 - 2002), teve uma vida muito preenchida e ligada à 7.ª arte. Toda a vida o vi relacionado sempre com o cinema. Muitas bobines carregou ele no FESTROIA (Festival de Cinema de Troia)...
Ouvi-lo contar as histórias sobre os acontecimentos estranhos, era hilariante e delicioso. Eram histórias, que por mais que eu já as soubesse e conhecesse, nunca me cansava de ouvir.
Antigamente, se a máquina de projeccionar os filmes encravava, podia queimar, e era uma carga de trabalhos... bastavam minutos de distração por parte do projeccionista para a imagem desfocar, ou baixar até cortar as legendas.
A fita podia sair do carreto, ou até partir... grandes dias onde eu também rebobinei bobines de filmes, mas sempre à mão!
Nessas alturas, lembro-me bem dos apupos e gritos, mas em especial do já habitual e académico "Oh marreco, olhó filme, pá!"
Não sei se era um mito urbano, ou não, mas tenho a percepção que muita gente pensava que os projeccionistas seriam marrecos, ou 'ratos de cavernas'...
E à uns dias, ao ver a miséria e a tristeza com que anda a nossa televisão, com excepção para alguns programas e momentos. De resto, a nossa tv anda quase sempre pelas ruas da amargura, lembrei-me que poderíamos aplicar a mesmíssima frase, ao ver programas de baixa qualidade, de interesse abaixo de cão, e no patamar dos já famosos 'tesourinhos deprimentes' (por favor, Gatos, continuem a expôr a miséria que por aí foi e ainda anda...).
Então, proponho: nos momentos nojentos e provocantes à acção regurgitante, gritemos a plenos pulmões: "Oh Marreco, olhó filme, pá!"
Esta expressão poderá ser usada, também, no emprego! O chefe pede-nos um trabalho equiparado à bosta de camelo e aí gritemos com a voz que nos resta: "Oh marreco, olhó filme, pá!"
E no trânsito, é a mesma coisa! Grandes filas de trânsito, provocadas por acidentes ou por problemas inerentes à qualidade rafeira das estradas, acessos e etc., gritemos com todo o ar da nossa caixa toráxica: "Oh marreco, olhó filme, pá!"
Nos bloggs, basta escrever. E sem maiúsculas, pois já não suporto gritos...