Terça-feira, 4 de Setembro de 2007

Sentimentos - Cap. II

Pela primeira vez em toda a minha vida, não consegui beber totalmente o meu habitual vinho do Porto, que costumo bebericar antes de jantar. Algo, alguém fez-me ficar embasbacado, de tal maneira que com os seus olhos penetrantes e profundos, desviou-me toda a concentração e atenção... engasguei-me...

Mas que bela entrada, que fiz, pensei para comigo, tentando disfarçar a tosse que ainda me incomodava na garganta... É que realmente havia razões para ficar deste modo... no meio de tantos amigos do Abílio, havia uma “amiga” que me fez sair do restaurante, em espírito, por breves segundos. Seu nome era Sandra. Atlética, desportiva, mais ou menos da minha altura, de cabelos vigorosos, belos, brilhantes, fortes, castanhos, bem escuros e... compridos. Aquilo dava-me cá um prazer de olhar... e o resto (Meu Deus, obrigado por poder ver as coisas, obrigado porque me abres os olhos da mente e do Espírito, para que eu não perca nada, nem ninguém...), Fisicamente era aquilo que eu sempre desejara, mãos suaves e perfeitas, cuidadas, dentes brancos, olhos verdes, lábios cheios, sumarentos, uma voz rouca e sensual, pele suave, cheirosa... e o resto fica para mim e para minha recordação eterna...

Não consegui tirar os olhos dela. Quase não jantei... e o mais incrível, é que ela também! Não conseguia tirar os olhos de mim, e para onde eu olhava, ela olhava também com medo de... sabe-se lá do quê... já nem me lembrava do resto do pessoal que veio ao jantar! Só o Abílio continuava a segredar-me confidências ao ouvido, incitando-me a conhecer melhor a Sandra...

Mas esse nome já me havia deixado marcas... amor, um filho, e traição... repentinamente, algo, um vazio, um frio invadiu-me o Espírito... cheguei a ficar com medo... o que seria?!... olhei para a Sandra. Ela fitava a aliança na minha mão esquerda. Bolas! Porque não a tirei? Porque continuo com esta merda no dedo? O divórcio já foi à 6 meses...

Subitamente, Sandra levanta-se da mesa e com cara quase de choro sai do restaurante. Vou atrás dela...

“Tudo bem?”

“Sim... comigo está! Só precisei de um pouco de ar fresco...” – Balbuciou entre lágrimas, suspiros, e afrontamentos.

“Já agora apresento-me. Posso?”

“Se insiste...”

“Chamo-me Ivailo Stoimenov. Os meus amigos chamam-me Stoy. E tu?”

“Sandra. (respirou fundo) E os meus amigos chamam-me Sandra...”

(risos de parte a parte)

“Algum problema? Vejo uma lágrima a piscar-me o olho na tua cara...”

“Não, simplesmente, tenho aversão a ... al.... algumas coisas e...”

“E isso é razão para chorar? Basta dizeres que não queres isto e aquilo e...”

“Não é bem assim. Principalmente quando as coisas que não gosto estão nas mãos das outras pessoas...”

Nesse instante, olhei para as minhas mãos. Tirei a aliança e perguntei:

“É isto? É esta ‘coisa’ que não gostas e que está na mão da pessoa?”

Pensou um bocado e num tom baixo, humilde mas sensual disse:

“...Sim...”

Tirei a aliança do dedo, e guardei-a no bolso das calças. Expliquei-me:

“Sou divorciado. Isto é o hábito...”

“Mas quantos anos tens?”

“Não vais acreditar... 23.”

“Também eu...”

E olhando para a Lua que nos iluminava e aconchegava fomos interrompidos pelo Abílio:

“Tão, como é, pá? Este jantar é para ti, e tu pisgas-te, bacano? Ai  o caneco...”

E assim, ‘voluntariamente’ dirigimo-nos de volta ao restaurante...

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publicado por Jv às 17:00
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